Quem nunca viu um gelfo na vida, não teria boa impressão quando os visse pela primeira vez. Eram parecidos com gambás, talvez cangurus feios. Tinham o corpo parecido com o de um ser humano, só que com rabo e coberto de pelos finos que podiam ser marrons, pretos, amarelos e até brancos. Tinham o nariz vermelho e sempre úmido e orelhas pontudas que sempre apontavam para você se falasse algo para eles. Era marsupiais, o que significa que as fêmeas possuem uma bolsa na barriga onde os filhotes são criados. Até depois de certa idade, alguns filhotes teimam em ficar ali até não caberem mais.
Os gelfos dos quais estamos falando vivem na floresta de Kellini. Um lugar com árvores de mais de 500 metros de altura. Muitos gostam de morar nas árvores e são chamados, sem muita criatividade, de gelfos das árvores. Mas a maioria prefere construir suas casas no chão bem firme, com madeira e pedras. Fazem pequenas vilas próximos a riachos e lá vivem suas vidinhas tranqüilas e ordinárias.
A família Vellanda
Sob o céu sem noite do planeta Elôh, na vila de Kopes vivia uma dessas famílias ordinárias de gelfos. Os Vellanda tentavam ser tão ordinários quando possível. Mas não era fácil. Jorost, o chefe da família, se dera muito bem na vida com uma plantação de gudango. Uma erva que nascia apenas nas montanhas ao norte, mas foi trazida há muitos anos para Kellini e poucos sabiam como cultivar de forma correta. Jorost era um desses que sabiam. Acontece que gudango era um fumo alucinógeno que fazia os gelfos ficarem alegres e dizerem besteiras. Isso não era proibido, mas muita gente achava que isso não era boa coisa. Ainda assim, vinham gelfos de todas as partes de Kellini para comprar o gudango de seu Jorost.
Jorost Vellanda observava seus filhos trabalhando na plantação de gudango e por instantes pensou se que podia ter dado a eles um futuro melhor. Balançou a cabeça rapidamente, como a querer livrar-se desse pensamento.
Sua família tinha uma vida de conforto e trabalho, ao mesmo tempo. Nada faltava em seu lar, embora não fossem lá muito respeitados na sociedade. Mas ele tentava consertar a situação doando excelentes quantias à igreja local, o que permita a sua família ter um certo status, que sabia ser provisório, ou melhor, que duraria enquanto durassem as doações.
Totalmente contrária a isso, sua esposa Pipa não cansava de lembrar a ele que podiam viver muito bem sem essas doações. A família dos pais dela nunca tinha doado nada e viviam felizes. Não tinham status nenhum, mas tinham a mesa farta, criaram os filhos saudáveis e não precisam se manter presos a nenhuma aparência. Eram o que eram e valiam por isso.
Muitas vezes Jorost teve que driblar a sua amada esposa e todo seu fluente argumento contra a igreja, que para ela não era nada mais do que um catalisador de riquezas e não um local religioso, para conseguir manter as doações e o bom relacionamento com a sociedade local.
Queria que seus filhos fossem respeitados, porque ele mesmo sofrera quando criança.
Jorost e Pipa tiveram uma criação muito diferente e suas idéias também divergiam, mas o amor dos dois vencia as barreiras que a sociedade poderia colocar entre os dois.
Veladamente tinham um acordo simples: ela podia expor seu pensamento, mas não proibiria Jorost de fazer o que acreditava ser o melhor para a família. E Pipa usava esse acordo para ajudar sua filha mais nova, Jun, que por ser altiva demais e meio diferente da maioria dos jovens, com seu interesse exarcebado por cultura, não tinha muitas chances de ser escolhida por algum rapaz para se casar.
E isso, na sociedade de Kopes, significava que poderia ser obrigada a seguir o caminho da religião. Poderia ser, mas Pipa montava toda sua defesa para que isso não acontecesse. Partilhava com a filha das opiniões contrárias a seguir algo que não tinha vocação nenhuma.
Os outros irmãos de Jun viviam criticando a irmã. Jino, Valla, Jost e Risa eram muito diferentes da irmã caçula, muito mais preocupados com a aparência externa.
Valla já tivera várias propostas de casamento e levava consigo um séqüito de admiradores, todos buscando destacar-se diante da bela jovem, na esperança de ser o escolhido. Ela costumava passar os fins de tarde sentada na varanda de sua casa, rodeada de seus apaixonados, que se esforçavam em satisfazer seus desejos, trazendo presentes e realizando façanhas para poderem se gabar diante dos adversários.
Jino sempre se mantinha por perto, demonstrando que era o guardião da irmã. E ninguém o provocava, porque brigar com ele era como brigar com uma muralha. Imenso para sua idade e mais forte até que o seu pai, Jino era campeão das lutas que organizava contra outros rapazes.
Dotado de músculos poderosos, faltava-lhe o mesmo porte na inteligência. Por isso não se dava bem com Jun e sua mania de leitura. Jino dizia que ler era coisa apenas de sacerdotes e se engraçava com Jun com gozações, dizendo que ela iria para o mosteiro e ficaria louca como o velho Fucô.
Os outros dois irmãos, Jost e Risa, eram quase inseparáveis. Formaram uma aliança desde pequenos e mesmo tendo pouca diferença de idade quanto a Jun, não deixavam a menina entrar nas brincadeiras com eles e isso acontecia desde que eles eram bem pequenos.
Eram só Jost e Risa sempre juntos. Parecia que o resto da família nem existia. Tagarelas ao extremo, gostavam de inventar histórias e pregar peças em quase todo mundo. Só não o faziam com seu pai porque temiam receber surras de advertência.
A altivez de Valla, a valentia de Jino, a tagarelice e essa mania de pregar peças de Jost e Risa, transformara aos quatro em figuras pouco amigáveis perante os vizinhos.
As moças invejavam Valla, os rapazes estavam cansados de levar surras do valentão Jino e quase todos os vizinhos já tinham sido alvos dos trotes de Jost e Risa.
Diferentes sentimentos todos tinham em relação a Jun. Ela era educadíssima e sempre sorridente. Lembrava-se de todos os nomes das pessoas que conhecia e sabia sempre de alguma particularidade de cada um.
Sempre que podia, levava algumas frutinhas para a Senhora Anikar, uma idosa gelfa que morava a pouca distância da família Vellanda. Com essas frutinhas, a Senhora Aikar fazia deliciosas geléias que saboreava com Jun, nas tardes que passavam conversando com Tosken e Saran, filhos do Seu Bazir, gelfos das árvores.
Já para a vizinha Inair, esposa de Junkah, jovenzinha ainda sem filhos, gostava de levar ramalhetes de hirdas, bonita florzinhas com as quais Inair fazia belos enfeites. Alguns ela recebeu de presente e deu a sua mãe Pipa, que alegremente agradecia e os colocava em local de destaque na decoração de seu lar.
Mas quem adorava de verdade a pequena Jun era o Seu Irthim, um gelfo de muita idade, que já não enxergava e tinha dificuldades imensas para se locomover. Jun era as cores da vida que ele não via mais, porque ficava horas e horas lendo para o solitário gelfo. Sempre que era necessário, Jun e seu pai levavam Irthim para a cidade, para que ele fizesse suas poucas compras que o mantinham abastecidos por longos períodos.
Jorost admirava muito a Irthim. Ele podia não enxergar com os olhos, mas o olfato apuradíssimo dele trazia mais informações que a capacidade de ver que Jorost tinha. Quando qualquer um passava por eles, nos passeios a cidade, Seu Irthim esperava que os passos se distanciassem para fazer comentários do tipo: “ela brigou com o marido e mandou-o embora de casa”, “esse homem está apaixonado por uma jovem dama”, “o menino que passou apanhou de seu pai ao fazer uma traquinagem”.
Por uma razão que nem Jorost, nem Jun ou qualquer outro gelfo conseguia entender, o cheiro que cada um desprendia levava para Irthim informações que escapavam do olhar e da análise corriqueira. Afinal, o olfato dos gelfos era muito mais apurado do que o de um ser humano. Não era dificuldade para eles, saber se alguém estava mentindo só pelo cheiro dos hormônios.
Uma vez o dono do armazém, Zhenk, resolveu fazer um teste com o velho Irthim. Levantou-se no amanhecer do dia que sabia que eles iriam fazer compras na cidade, foi até a casa de um vizinho e podou todas as árvores em volta. Voltou para casa, tomou um demorado banho, perfumou-se com essências suas e ainda usou essências de sua esposa, para depois ir abrir o armazém. Mesmo assim, Irthim era um fenômeno.
Quando estava no meio da manhã, chegaram Jorost, Jun e Irthim. As listas de compras dos Vellanda e do velho gelfo foram depositadas no balcão. Enquanto os fregueses esperavam, Zhenk serviu um chá aromatizado que deixou todo o armazém perfumado pelas flores usados na infusão. No fim de tudo, após carregar as compras de todos, sentou-se ao lado do velho Irthim.
- Irthim, meu caro, como está a vida? – perguntou o dono do armazém, puxando conversa.
- A vida do Seu Irthim ele responde, mas você Zhenk precisa usar menos essências – comentou Jun, tampando o nariz
Emanando a mistura incrível da banho demorado, das essências exageradas, do chá de flores que fizera e o suor do esforço para carregar as compras, Zhenk sorriu, crente que pregara uma peça no velho gelfo.
- Realmente, você está um festival de aromas. Acho que devemos ir embora porque já está demais respirar por aqui – brincou Irthim.
Os quatro levantaram-se e foram para a porta do estabelecimento. Chegando lá, Zhenk já ia desmascarar o velho gelfo, dizendo que ele não fora capaz de perceber nada pelo aroma que ele emitia, mas foi surpreendido por Irthim.
- Da próxima vez que podar árvores, não precisa tomar esse banho tão demorado e tão perfumado, Zhenk, para tentar me enganar. Assim você vai afastar a freguesia com toda essa mistura de cheiros fortes.
Jun caiu na gargalhada, mesmo com seu pai lançando um olhar severo para ela. Mas mesmo Jorost não agüentou muito diante do espanto que dominou o rosto de Zhenk que olhava para Seu Irthim, depois de ser pego em sua travessura.
Quando chegaram em casa, a primeira coisa que Jun fez foi contar para sua mãe o que acontecera e depois ir para o quarto, escutando a gostosa risada de Pipa, para escrever o que acontecera em forma de uma cartinha que mandaria no dia seguinte para suas amigas indras, na cidade de Neide.
Enquanto escrevia sonhava com o dia que visitaria seus amigos. Mas ainda tinha que convencer seu pai e vencer o desespero dele quanto ao que ele chamava de amizades esquisitas.
II
Boas notícias
Jun ouviu ao longe o apito de Klino, o gelfo que entregava as cartas aos poucos moradores da Vila de Kopes que sabiam ler.
Ele passava todas as manhãs pelas redondezas e em cada casa que ia, aproveitava para conversar e sempre aceitava algum agrado em forma de guloseimas. Como só os cléricos e os mais abastados sabiam ler, Klino era sempre convidado para comer algo. Algo que também era muito bom para que o seu cavalo, já meio idoso, pudesse beber água e descansar. Não era fácil carregar o imenso Klino, que sempre dizia que seu cavalo era lento pelo peso da correspondência.
Ninguém contestava, mas sempre olhavam para a pequena sacola que ele levava no ombro, que continha sempre algumas poucas cartas e de vez em quando um ou outro pacote um pouco maior.
Com cartas para entregar ou sem elas, Klino sempre passava em todas as residências. E quando chegava à casa dos Vellanda, ele descia do cavalo e já falava que precisava descansar muito, afinal a casa deles era das mais bem afastadas.
Por isso Pipa já sabia e deixava pronta uma mesa farta com bolos e chá, que tanto alegravam o carteiro guloso.
Nos últimos dias Jun não saia do portão enquanto Klino não chegasse. Esperava ansiosa uma cartinha em resposta a sua que enviara as suas amigas indras. Ela temia que seu pai pegasse a carta antes dela e a jogasse fora, ele não gostava nem um pouco das fadas e temia o que ele chamava de bruxaria. “Só existe magia através do espírito de Elôh, todo o resto é coisa dos demônios”, diziam os sacerdotes. “Assim seja”, concordava Jorost.
Pipa não ligava para essa religiosidade ignorante, mas também não entendia muito essa amizade com as fadas, com certeza, porém, gostaria de saber tanta coisa quanto Jun sabia, de tanto ler os livros que ganhava. Não escondeu o orgulho quando soube que a filha sabia ler não só no idioma gélfico, mas na misteriosa escrita das fadas.
Ao ver a ponta de um envelope colorido na sacola do carteiro, Jun bateu palmas efusivamente. Quase derrubou o gelfo bonachão para pegar sua carta e novamente o desequilibrou ao passar correndo para seu quarto.
Risa ficou olhando sua irmã correr para dentro de casa e chamou Jost, fazendo sinais para que se apressasse. Cochichou um plano ao irmão e rindo muito, pegou um pouco de melado que sua mãe tinha deixado na jarra na pia, com a intenção de pregar uma peça em Jun.
Por sorte dela, Jost olhou para o cavalo de Klino e teve uma idéia melhor: eles podiam melar toda a sela dele, assim o carteiro não ia conseguir montar, caindo ao chão. Risa, tão arteira quanto ele, adorou a idéia. Melhor um trote no gordo gelfo do que em sua irmã, porque ela já lhes prometera algumas palmadas depois da última peça que pregaram nela.
Enquanto seus irmãos menores faziam sua arte, Jun trancou-se no quarto para ler a cartinha.
Seus olhos encheram-se de alegria ao ver que dentro da cartinha tinha sementes de uliandra, a flor que ela mais gostava. Lembrou-se que Myllin, sua amiga indra, tinha lhe contado que o jardim que enfeitava a sua casa era repleto de uliandras.
Jun conheceu Myllin quando a bela fada veio trazer alguns livros para Irthim, antes dele perder totalmente a visão. Jun era bem criança ainda e ficou maravilhada com a formosura de Myllin e seu corpo humanóide. Na afastada aldeia de Kopes, com suas crenças antigas e cultura deficitária, havia a crença de que os humanóides eram seres superiores aos gelfos. Não havia neles a noção de igualdade. Os sacerdotes, entretanto, avisavam que o livro sagrado tinham muitos “poréns” em relação aos homens e que os gelfos deveriam ser cautelosos com amizades humanóides. Uma vez, conversando com Irthim, Jun perguntou se havia outros homens além das fronteiras de Kellyni. O ancião foi vago ao responder. “Os homens são escória do universo, tenha medo deles se vestirem algo que lhes cubra o rosto”. Jun quis perguntar mais, mas Irthim nunca mais falou sobre o assunto.
Depois que Irthim não conseguiu mais enxergar as letras dos livros que ele tanto amava, Jun começou a ler para ele, apaixonando-se também por essa leitura.
Desde que se conheceram, Jun e Myllin, nunca mais deixaram de se corresponder. As duas eram as confidentes e esperavam a chegada das cartinhas sempre com ansiedade. Afinal de contas, Myllin nunca escondia o rosto, apesar de ser humanóide.
Jun deitou-se em sua cama e começou a ler:
“Minha querida amiguinha Jun, estamos com saudades. Eu e minhas irmãs estamos preparando uma surpresa para você, que acredito que será do seu agrado.
Obrigado pela receita do delicioso doce de frutas que você me enviou, eu fiz no dia em que comemoramos o início da primavera e todos elogiaram.
Estou em nome de todos aqui de casa, convidando-a para passar alguns dias aqui, mimosa gelfa, assim você poderá receber seu presente. Como sei que seu pai não iria ceder muito fácil, resolvi então fazer uma encomenda de gundango, para o festival anual de nossa vila, assim você tem um bom motivo para viajar até aqui. Só precisa convencer seu pai para que ele a encarregue dessa tarefa, o que não deve ser muito difícil pelo que me conta dos seus irmãos. Nenhum deles vai querer trazer a encomenda, a viagem é longa e cansativa.
Da última vez quem veio foi seu pai e ele mesmo disse que se houvesse outra encomenda, mandaria um dos seus filhos, porque já estava velho demais para esse tipo de entrega.
Peça para ele enviar a mesma quantidade do ano passado e se possível, enviar também algumas pedras pequeninas cobertas de limo, que estejam perto das plantas que irão colher para o nosso pedido, elas tem uma energia muito útil para determinadas poções.
Pagaremos sem regatear o preço que ele pedir.
Acredito que, daqui a duas semanas, será o tempo ideal para que você parta para nossa vila, trazendo a encomenda.
Fico no aguardo de sua chegada. Responda-me confirmando a encomenda e a sua presença, isso nos trará grande alegria.
Votos de felicidade e magia.
Sua amiga:
Myllin”
Jun largou a cartinha assim que terminou e desceu as escadas em forma de caracol o mais rápido que conseguia. Seu Jorost não estava em casa, então Jun pulou no colo da mãe e despejou uma balde de palavras e pedidos, deixando a mãe zonza. Cinco minutos depois, Pipa entendeu o que se passava.
- Não quero te desanimar, rapariga, mas teu pai não vai concordar com isso assim tão facilmente.
- Mas, mãe, eu queria muito ir... É algo muito importante para mim.
- Você sabe que seu pai pensa das indras e de seu relacionamento com elas – comentou a mãe pensativa. – Mas eu sei como funciona a cabeça de Jorost. Deixa que sua mãe resolve isso...
Naquela tarde, durante o jantar cheio de carne de coláx assada, o prato favorito de Jorost, Pipa entregou a carta que Myllin enviara separada, com a encomenda.
- Meu felpudo, não estou gostando disso aqui! – falou com cara de zangada.
Jorost olhou assustado. “O que foi que eu fiz?”, pensou.
Pipa não respondeu ao olhar. Apenas continuou a olhar para a carta com cara de zangada. O cheiro de insegurança exalado por Jorost foi sentido em todos os móveis da cozinha, competindo com o aroma salgado do coláx exalado pelas panelas.
- Uma encomenda das indras – leu Jorost. – Elas deram abertura ao pagamento...
- Mas eu não quero saber de você ir naquela cidade cheia de humanas. Dizem que elas seduzem todos os seres vivos.
- Ah! Por favor, Pipa, isso é um absurdo...
- Além do mais, lembra do problema que você arrumou na bacia por causa da viagem? Não quero você se metendo nisso. Você tem muitos filhos fortes e eles podem muito bem fazer este serviço.
Jorost olhou para o valor em aberto que estava escrito na folha. Ano passado a encomenda das indras tinham ajudado a financiar dois novos cavalos...
- Meus filhos não querem saber de viajar. Sabe como é complicado...
Dona Pipa botou pesadamente a colher de comida na mesa e cruzou os braços.
- Seus filhos não vão comer por conta dessa encomenda, não vão ganhar estatus na igreja por conta dessa encomenda. Pois eu te digo, Jorost, seus filhos vão ter que trabalhar mais se quiserem comer.
Neste momento, Jun entra na cozinha, de banho tomado para evitar o cheiro de ansiedade e pergunta o que está havendo.
- Seu pai está querendo ir aquela viagem de novo! – diz Pipa antes de começar a chorar. Lágrimas legítimas que impressionaram a filha de tal maneira que ela quase se convenceu da atuação da mãe. – Acho que ele é apaixonado nas indras, nem liga mais para mim, nem para a saúde dele.
- Não, mãe! Não briguem. Eu tinha algumas coisas para fazer, mas, se for para ajudar vocês, eu posso ir.
Desesperado com a situação, Seu Jorost, nem titubeou.
- Sim, Jun pode ir sim. Ela gosta mesmo destas indras esquisitas.
- Você faria isso, Jun? – perguntou Pipa suplicante.
- Sim, se for para o bem da família, eu vou, claro!
Enquanto Jorost ainda estava atordoado e feliz com a solução encontrada, Pipa ficou olhando Jun subir as escadas novamente, saltitando alegre. A mãe sorriu por ter percebido que sua filha conseguira o que queria.
Ela gostava da clareza de pensamentos de sua filha e ficava feliz por pelo menos um dos seus filhos ter puxado sua família, não se importando somente com as aparências, mas cultivando a inteligência.
Pipa amava muito Jorost e somente por isso conseguia viver com alguém digamos, mais simples na maneira de pensar. Jorost era muito a terra, a vida no campo, a ação. Ela era a mente, a sensibilidade. No começo sentira muito a falta de uma conversa mais elevada, mas logo vieram os filhos e sua mente se ocupou de outras coisas. Com Jun viera a chance trocar conhecimentos e sair da rotina de cuidar da casa e da plantação de gundango.
Pipa não se arrependia da sua união com Jorost, ele sempre fora um excelente companheiro, amoroso e servil. Mas não a completava totalmente. Agora com sua filha, essa parte de sua vida estava mais harmoniosa.
Jorost já tinha ido para a lavoura e ela ainda divagava quando Jun desceu as escadas correndo mais uma vez, com uma cartinha perfumada nas mãos. Ela entregou para Klino, recomendando que a carta fosse enviada com presteza.
Escrevera para Myllin informando que a encomenda e ela seguiriam no prazo determinado e que ela estava muito animada por conhecer a cidade de Neide pessoalmente, além das irmãs de sua amiga.
Jun não sabia ainda qual surpresa reservava essa viagem e como ela mudaria sua vida quando ela voltasse para casa.
Os gelfos dos quais estamos falando vivem na floresta de Kellini. Um lugar com árvores de mais de 500 metros de altura. Muitos gostam de morar nas árvores e são chamados, sem muita criatividade, de gelfos das árvores. Mas a maioria prefere construir suas casas no chão bem firme, com madeira e pedras. Fazem pequenas vilas próximos a riachos e lá vivem suas vidinhas tranqüilas e ordinárias.
A família Vellanda
Sob o céu sem noite do planeta Elôh, na vila de Kopes vivia uma dessas famílias ordinárias de gelfos. Os Vellanda tentavam ser tão ordinários quando possível. Mas não era fácil. Jorost, o chefe da família, se dera muito bem na vida com uma plantação de gudango. Uma erva que nascia apenas nas montanhas ao norte, mas foi trazida há muitos anos para Kellini e poucos sabiam como cultivar de forma correta. Jorost era um desses que sabiam. Acontece que gudango era um fumo alucinógeno que fazia os gelfos ficarem alegres e dizerem besteiras. Isso não era proibido, mas muita gente achava que isso não era boa coisa. Ainda assim, vinham gelfos de todas as partes de Kellini para comprar o gudango de seu Jorost.
Jorost Vellanda observava seus filhos trabalhando na plantação de gudango e por instantes pensou se que podia ter dado a eles um futuro melhor. Balançou a cabeça rapidamente, como a querer livrar-se desse pensamento.
Sua família tinha uma vida de conforto e trabalho, ao mesmo tempo. Nada faltava em seu lar, embora não fossem lá muito respeitados na sociedade. Mas ele tentava consertar a situação doando excelentes quantias à igreja local, o que permita a sua família ter um certo status, que sabia ser provisório, ou melhor, que duraria enquanto durassem as doações.
Totalmente contrária a isso, sua esposa Pipa não cansava de lembrar a ele que podiam viver muito bem sem essas doações. A família dos pais dela nunca tinha doado nada e viviam felizes. Não tinham status nenhum, mas tinham a mesa farta, criaram os filhos saudáveis e não precisam se manter presos a nenhuma aparência. Eram o que eram e valiam por isso.
Muitas vezes Jorost teve que driblar a sua amada esposa e todo seu fluente argumento contra a igreja, que para ela não era nada mais do que um catalisador de riquezas e não um local religioso, para conseguir manter as doações e o bom relacionamento com a sociedade local.
Queria que seus filhos fossem respeitados, porque ele mesmo sofrera quando criança.
Jorost e Pipa tiveram uma criação muito diferente e suas idéias também divergiam, mas o amor dos dois vencia as barreiras que a sociedade poderia colocar entre os dois.
Veladamente tinham um acordo simples: ela podia expor seu pensamento, mas não proibiria Jorost de fazer o que acreditava ser o melhor para a família. E Pipa usava esse acordo para ajudar sua filha mais nova, Jun, que por ser altiva demais e meio diferente da maioria dos jovens, com seu interesse exarcebado por cultura, não tinha muitas chances de ser escolhida por algum rapaz para se casar.
E isso, na sociedade de Kopes, significava que poderia ser obrigada a seguir o caminho da religião. Poderia ser, mas Pipa montava toda sua defesa para que isso não acontecesse. Partilhava com a filha das opiniões contrárias a seguir algo que não tinha vocação nenhuma.
Os outros irmãos de Jun viviam criticando a irmã. Jino, Valla, Jost e Risa eram muito diferentes da irmã caçula, muito mais preocupados com a aparência externa.
Valla já tivera várias propostas de casamento e levava consigo um séqüito de admiradores, todos buscando destacar-se diante da bela jovem, na esperança de ser o escolhido. Ela costumava passar os fins de tarde sentada na varanda de sua casa, rodeada de seus apaixonados, que se esforçavam em satisfazer seus desejos, trazendo presentes e realizando façanhas para poderem se gabar diante dos adversários.
Jino sempre se mantinha por perto, demonstrando que era o guardião da irmã. E ninguém o provocava, porque brigar com ele era como brigar com uma muralha. Imenso para sua idade e mais forte até que o seu pai, Jino era campeão das lutas que organizava contra outros rapazes.
Dotado de músculos poderosos, faltava-lhe o mesmo porte na inteligência. Por isso não se dava bem com Jun e sua mania de leitura. Jino dizia que ler era coisa apenas de sacerdotes e se engraçava com Jun com gozações, dizendo que ela iria para o mosteiro e ficaria louca como o velho Fucô.
Os outros dois irmãos, Jost e Risa, eram quase inseparáveis. Formaram uma aliança desde pequenos e mesmo tendo pouca diferença de idade quanto a Jun, não deixavam a menina entrar nas brincadeiras com eles e isso acontecia desde que eles eram bem pequenos.
Eram só Jost e Risa sempre juntos. Parecia que o resto da família nem existia. Tagarelas ao extremo, gostavam de inventar histórias e pregar peças em quase todo mundo. Só não o faziam com seu pai porque temiam receber surras de advertência.
A altivez de Valla, a valentia de Jino, a tagarelice e essa mania de pregar peças de Jost e Risa, transformara aos quatro em figuras pouco amigáveis perante os vizinhos.
As moças invejavam Valla, os rapazes estavam cansados de levar surras do valentão Jino e quase todos os vizinhos já tinham sido alvos dos trotes de Jost e Risa.
Diferentes sentimentos todos tinham em relação a Jun. Ela era educadíssima e sempre sorridente. Lembrava-se de todos os nomes das pessoas que conhecia e sabia sempre de alguma particularidade de cada um.
Sempre que podia, levava algumas frutinhas para a Senhora Anikar, uma idosa gelfa que morava a pouca distância da família Vellanda. Com essas frutinhas, a Senhora Aikar fazia deliciosas geléias que saboreava com Jun, nas tardes que passavam conversando com Tosken e Saran, filhos do Seu Bazir, gelfos das árvores.
Já para a vizinha Inair, esposa de Junkah, jovenzinha ainda sem filhos, gostava de levar ramalhetes de hirdas, bonita florzinhas com as quais Inair fazia belos enfeites. Alguns ela recebeu de presente e deu a sua mãe Pipa, que alegremente agradecia e os colocava em local de destaque na decoração de seu lar.
Mas quem adorava de verdade a pequena Jun era o Seu Irthim, um gelfo de muita idade, que já não enxergava e tinha dificuldades imensas para se locomover. Jun era as cores da vida que ele não via mais, porque ficava horas e horas lendo para o solitário gelfo. Sempre que era necessário, Jun e seu pai levavam Irthim para a cidade, para que ele fizesse suas poucas compras que o mantinham abastecidos por longos períodos.
Jorost admirava muito a Irthim. Ele podia não enxergar com os olhos, mas o olfato apuradíssimo dele trazia mais informações que a capacidade de ver que Jorost tinha. Quando qualquer um passava por eles, nos passeios a cidade, Seu Irthim esperava que os passos se distanciassem para fazer comentários do tipo: “ela brigou com o marido e mandou-o embora de casa”, “esse homem está apaixonado por uma jovem dama”, “o menino que passou apanhou de seu pai ao fazer uma traquinagem”.
Por uma razão que nem Jorost, nem Jun ou qualquer outro gelfo conseguia entender, o cheiro que cada um desprendia levava para Irthim informações que escapavam do olhar e da análise corriqueira. Afinal, o olfato dos gelfos era muito mais apurado do que o de um ser humano. Não era dificuldade para eles, saber se alguém estava mentindo só pelo cheiro dos hormônios.
Uma vez o dono do armazém, Zhenk, resolveu fazer um teste com o velho Irthim. Levantou-se no amanhecer do dia que sabia que eles iriam fazer compras na cidade, foi até a casa de um vizinho e podou todas as árvores em volta. Voltou para casa, tomou um demorado banho, perfumou-se com essências suas e ainda usou essências de sua esposa, para depois ir abrir o armazém. Mesmo assim, Irthim era um fenômeno.
Quando estava no meio da manhã, chegaram Jorost, Jun e Irthim. As listas de compras dos Vellanda e do velho gelfo foram depositadas no balcão. Enquanto os fregueses esperavam, Zhenk serviu um chá aromatizado que deixou todo o armazém perfumado pelas flores usados na infusão. No fim de tudo, após carregar as compras de todos, sentou-se ao lado do velho Irthim.
- Irthim, meu caro, como está a vida? – perguntou o dono do armazém, puxando conversa.
- A vida do Seu Irthim ele responde, mas você Zhenk precisa usar menos essências – comentou Jun, tampando o nariz
Emanando a mistura incrível da banho demorado, das essências exageradas, do chá de flores que fizera e o suor do esforço para carregar as compras, Zhenk sorriu, crente que pregara uma peça no velho gelfo.
- Realmente, você está um festival de aromas. Acho que devemos ir embora porque já está demais respirar por aqui – brincou Irthim.
Os quatro levantaram-se e foram para a porta do estabelecimento. Chegando lá, Zhenk já ia desmascarar o velho gelfo, dizendo que ele não fora capaz de perceber nada pelo aroma que ele emitia, mas foi surpreendido por Irthim.
- Da próxima vez que podar árvores, não precisa tomar esse banho tão demorado e tão perfumado, Zhenk, para tentar me enganar. Assim você vai afastar a freguesia com toda essa mistura de cheiros fortes.
Jun caiu na gargalhada, mesmo com seu pai lançando um olhar severo para ela. Mas mesmo Jorost não agüentou muito diante do espanto que dominou o rosto de Zhenk que olhava para Seu Irthim, depois de ser pego em sua travessura.
Quando chegaram em casa, a primeira coisa que Jun fez foi contar para sua mãe o que acontecera e depois ir para o quarto, escutando a gostosa risada de Pipa, para escrever o que acontecera em forma de uma cartinha que mandaria no dia seguinte para suas amigas indras, na cidade de Neide.
Enquanto escrevia sonhava com o dia que visitaria seus amigos. Mas ainda tinha que convencer seu pai e vencer o desespero dele quanto ao que ele chamava de amizades esquisitas.
II
Boas notícias
Jun ouviu ao longe o apito de Klino, o gelfo que entregava as cartas aos poucos moradores da Vila de Kopes que sabiam ler.
Ele passava todas as manhãs pelas redondezas e em cada casa que ia, aproveitava para conversar e sempre aceitava algum agrado em forma de guloseimas. Como só os cléricos e os mais abastados sabiam ler, Klino era sempre convidado para comer algo. Algo que também era muito bom para que o seu cavalo, já meio idoso, pudesse beber água e descansar. Não era fácil carregar o imenso Klino, que sempre dizia que seu cavalo era lento pelo peso da correspondência.
Ninguém contestava, mas sempre olhavam para a pequena sacola que ele levava no ombro, que continha sempre algumas poucas cartas e de vez em quando um ou outro pacote um pouco maior.
Com cartas para entregar ou sem elas, Klino sempre passava em todas as residências. E quando chegava à casa dos Vellanda, ele descia do cavalo e já falava que precisava descansar muito, afinal a casa deles era das mais bem afastadas.
Por isso Pipa já sabia e deixava pronta uma mesa farta com bolos e chá, que tanto alegravam o carteiro guloso.
Nos últimos dias Jun não saia do portão enquanto Klino não chegasse. Esperava ansiosa uma cartinha em resposta a sua que enviara as suas amigas indras. Ela temia que seu pai pegasse a carta antes dela e a jogasse fora, ele não gostava nem um pouco das fadas e temia o que ele chamava de bruxaria. “Só existe magia através do espírito de Elôh, todo o resto é coisa dos demônios”, diziam os sacerdotes. “Assim seja”, concordava Jorost.
Pipa não ligava para essa religiosidade ignorante, mas também não entendia muito essa amizade com as fadas, com certeza, porém, gostaria de saber tanta coisa quanto Jun sabia, de tanto ler os livros que ganhava. Não escondeu o orgulho quando soube que a filha sabia ler não só no idioma gélfico, mas na misteriosa escrita das fadas.
Ao ver a ponta de um envelope colorido na sacola do carteiro, Jun bateu palmas efusivamente. Quase derrubou o gelfo bonachão para pegar sua carta e novamente o desequilibrou ao passar correndo para seu quarto.
Risa ficou olhando sua irmã correr para dentro de casa e chamou Jost, fazendo sinais para que se apressasse. Cochichou um plano ao irmão e rindo muito, pegou um pouco de melado que sua mãe tinha deixado na jarra na pia, com a intenção de pregar uma peça em Jun.
Por sorte dela, Jost olhou para o cavalo de Klino e teve uma idéia melhor: eles podiam melar toda a sela dele, assim o carteiro não ia conseguir montar, caindo ao chão. Risa, tão arteira quanto ele, adorou a idéia. Melhor um trote no gordo gelfo do que em sua irmã, porque ela já lhes prometera algumas palmadas depois da última peça que pregaram nela.
Enquanto seus irmãos menores faziam sua arte, Jun trancou-se no quarto para ler a cartinha.
Seus olhos encheram-se de alegria ao ver que dentro da cartinha tinha sementes de uliandra, a flor que ela mais gostava. Lembrou-se que Myllin, sua amiga indra, tinha lhe contado que o jardim que enfeitava a sua casa era repleto de uliandras.
Jun conheceu Myllin quando a bela fada veio trazer alguns livros para Irthim, antes dele perder totalmente a visão. Jun era bem criança ainda e ficou maravilhada com a formosura de Myllin e seu corpo humanóide. Na afastada aldeia de Kopes, com suas crenças antigas e cultura deficitária, havia a crença de que os humanóides eram seres superiores aos gelfos. Não havia neles a noção de igualdade. Os sacerdotes, entretanto, avisavam que o livro sagrado tinham muitos “poréns” em relação aos homens e que os gelfos deveriam ser cautelosos com amizades humanóides. Uma vez, conversando com Irthim, Jun perguntou se havia outros homens além das fronteiras de Kellyni. O ancião foi vago ao responder. “Os homens são escória do universo, tenha medo deles se vestirem algo que lhes cubra o rosto”. Jun quis perguntar mais, mas Irthim nunca mais falou sobre o assunto.
Depois que Irthim não conseguiu mais enxergar as letras dos livros que ele tanto amava, Jun começou a ler para ele, apaixonando-se também por essa leitura.
Desde que se conheceram, Jun e Myllin, nunca mais deixaram de se corresponder. As duas eram as confidentes e esperavam a chegada das cartinhas sempre com ansiedade. Afinal de contas, Myllin nunca escondia o rosto, apesar de ser humanóide.
Jun deitou-se em sua cama e começou a ler:
“Minha querida amiguinha Jun, estamos com saudades. Eu e minhas irmãs estamos preparando uma surpresa para você, que acredito que será do seu agrado.
Obrigado pela receita do delicioso doce de frutas que você me enviou, eu fiz no dia em que comemoramos o início da primavera e todos elogiaram.
Estou em nome de todos aqui de casa, convidando-a para passar alguns dias aqui, mimosa gelfa, assim você poderá receber seu presente. Como sei que seu pai não iria ceder muito fácil, resolvi então fazer uma encomenda de gundango, para o festival anual de nossa vila, assim você tem um bom motivo para viajar até aqui. Só precisa convencer seu pai para que ele a encarregue dessa tarefa, o que não deve ser muito difícil pelo que me conta dos seus irmãos. Nenhum deles vai querer trazer a encomenda, a viagem é longa e cansativa.
Da última vez quem veio foi seu pai e ele mesmo disse que se houvesse outra encomenda, mandaria um dos seus filhos, porque já estava velho demais para esse tipo de entrega.
Peça para ele enviar a mesma quantidade do ano passado e se possível, enviar também algumas pedras pequeninas cobertas de limo, que estejam perto das plantas que irão colher para o nosso pedido, elas tem uma energia muito útil para determinadas poções.
Pagaremos sem regatear o preço que ele pedir.
Acredito que, daqui a duas semanas, será o tempo ideal para que você parta para nossa vila, trazendo a encomenda.
Fico no aguardo de sua chegada. Responda-me confirmando a encomenda e a sua presença, isso nos trará grande alegria.
Votos de felicidade e magia.
Sua amiga:
Myllin”
Jun largou a cartinha assim que terminou e desceu as escadas em forma de caracol o mais rápido que conseguia. Seu Jorost não estava em casa, então Jun pulou no colo da mãe e despejou uma balde de palavras e pedidos, deixando a mãe zonza. Cinco minutos depois, Pipa entendeu o que se passava.
- Não quero te desanimar, rapariga, mas teu pai não vai concordar com isso assim tão facilmente.
- Mas, mãe, eu queria muito ir... É algo muito importante para mim.
- Você sabe que seu pai pensa das indras e de seu relacionamento com elas – comentou a mãe pensativa. – Mas eu sei como funciona a cabeça de Jorost. Deixa que sua mãe resolve isso...
Naquela tarde, durante o jantar cheio de carne de coláx assada, o prato favorito de Jorost, Pipa entregou a carta que Myllin enviara separada, com a encomenda.
- Meu felpudo, não estou gostando disso aqui! – falou com cara de zangada.
Jorost olhou assustado. “O que foi que eu fiz?”, pensou.
Pipa não respondeu ao olhar. Apenas continuou a olhar para a carta com cara de zangada. O cheiro de insegurança exalado por Jorost foi sentido em todos os móveis da cozinha, competindo com o aroma salgado do coláx exalado pelas panelas.
- Uma encomenda das indras – leu Jorost. – Elas deram abertura ao pagamento...
- Mas eu não quero saber de você ir naquela cidade cheia de humanas. Dizem que elas seduzem todos os seres vivos.
- Ah! Por favor, Pipa, isso é um absurdo...
- Além do mais, lembra do problema que você arrumou na bacia por causa da viagem? Não quero você se metendo nisso. Você tem muitos filhos fortes e eles podem muito bem fazer este serviço.
Jorost olhou para o valor em aberto que estava escrito na folha. Ano passado a encomenda das indras tinham ajudado a financiar dois novos cavalos...
- Meus filhos não querem saber de viajar. Sabe como é complicado...
Dona Pipa botou pesadamente a colher de comida na mesa e cruzou os braços.
- Seus filhos não vão comer por conta dessa encomenda, não vão ganhar estatus na igreja por conta dessa encomenda. Pois eu te digo, Jorost, seus filhos vão ter que trabalhar mais se quiserem comer.
Neste momento, Jun entra na cozinha, de banho tomado para evitar o cheiro de ansiedade e pergunta o que está havendo.
- Seu pai está querendo ir aquela viagem de novo! – diz Pipa antes de começar a chorar. Lágrimas legítimas que impressionaram a filha de tal maneira que ela quase se convenceu da atuação da mãe. – Acho que ele é apaixonado nas indras, nem liga mais para mim, nem para a saúde dele.
- Não, mãe! Não briguem. Eu tinha algumas coisas para fazer, mas, se for para ajudar vocês, eu posso ir.
Desesperado com a situação, Seu Jorost, nem titubeou.
- Sim, Jun pode ir sim. Ela gosta mesmo destas indras esquisitas.
- Você faria isso, Jun? – perguntou Pipa suplicante.
- Sim, se for para o bem da família, eu vou, claro!
Enquanto Jorost ainda estava atordoado e feliz com a solução encontrada, Pipa ficou olhando Jun subir as escadas novamente, saltitando alegre. A mãe sorriu por ter percebido que sua filha conseguira o que queria.
Ela gostava da clareza de pensamentos de sua filha e ficava feliz por pelo menos um dos seus filhos ter puxado sua família, não se importando somente com as aparências, mas cultivando a inteligência.
Pipa amava muito Jorost e somente por isso conseguia viver com alguém digamos, mais simples na maneira de pensar. Jorost era muito a terra, a vida no campo, a ação. Ela era a mente, a sensibilidade. No começo sentira muito a falta de uma conversa mais elevada, mas logo vieram os filhos e sua mente se ocupou de outras coisas. Com Jun viera a chance trocar conhecimentos e sair da rotina de cuidar da casa e da plantação de gundango.
Pipa não se arrependia da sua união com Jorost, ele sempre fora um excelente companheiro, amoroso e servil. Mas não a completava totalmente. Agora com sua filha, essa parte de sua vida estava mais harmoniosa.
Jorost já tinha ido para a lavoura e ela ainda divagava quando Jun desceu as escadas correndo mais uma vez, com uma cartinha perfumada nas mãos. Ela entregou para Klino, recomendando que a carta fosse enviada com presteza.
Escrevera para Myllin informando que a encomenda e ela seguiriam no prazo determinado e que ela estava muito animada por conhecer a cidade de Neide pessoalmente, além das irmãs de sua amiga.
Jun não sabia ainda qual surpresa reservava essa viagem e como ela mudaria sua vida quando ela voltasse para casa.
(continua...)